quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O Auto de Inês Pereira e a relação com a contemporaneidade


O Auto de Inês Pereira e a relação com a contemporaneidade

            A verossimilhança que Gil Vicente expõe em sua obra de 1523,  O Auto de Inês Pereira, com os acontecimentos contemporâneos da humanidade, em especial ao gênero feminino são muito evidentes. A pouca valorização da mulher em detrimento ao homem é fato consumado em diversas épocas e, não se difere nos séculos mais recentes, pois as profissionais que exercem as mesmas funções que os homens recebem soldo menor por seu labuto, embora por muitas vezes mais qualificadas e sensíveis às alterações e progressos que as diversas atividades profissionais exigem.
            Se Inês vivia a lavrar e a exercer diversas atividades em sua moradia tendo que encontrar somente uma válvula de escape um casamento arranjado para exercê-lo como forma de fuga da realidade vivida, não diferente é em algumas situações onde as filhas são usadas como serviçais da casa e, para que isto tome um rumo diferente elas são absorvidas pelas mazelas da sociedade, o que lhes causa na maioria das vezes muita dor e sofrimento, pois partem para uma competição com os homens no mercado de trabalho onde ainda são menos valorizadas, principalmente quando se trata de mulheres de baixa renda.
            Os interesses materiais perduram por séculos se sobressaindo num revés da valorização humana e ao próprio cuidado com a vida, tema este discutido muito neste ano, principalmente na igreja brasileira.
            Daí, vem em seguida o desencanto com algo que era um sonho de liberdade, a vida à dois pode não ser melhor do que a outrora vida de solteira, a submissão antes à família, nos casos de hoje cuidando de irmãos menores e tomando conta da casa e, passa a ser uma submissão ao marido ou companheiro que por sua vez impõe tarefas e, mesmo que a mulher busque seus rendimentos além das atividades domésticas  do lar, o peso dobra sobre suas costas, pois o cúmulo de funções dentro e fora de casa as torna mulheres, muitas vezes depressivas e extremamente exaustas, o que as leva a novas desventuras e um abraço envolvente com a desilusão.
            As Inês Pereira deste século ainda perduram, ainda clamam por reconhecimento e ainda buscam os valores que ora perderam, a figura da submissão, da pessoa desencantada com a vida que leva tem gerado, ao longo dos anos contemporâneos, diversos desdobramentos na vida das mulheres das diferentes nacionalidades e classes sociais, tudo isto resulta em casos semelhantes aos que a ficção de Gil Vicente expôs em 1523 , pois as mulheres frustradas e desencantadas acabam por trair seus maridos na busca de algo que as complete e de algo que as equipare do gênero masculino, diante da sociedade.
            As mulheres contemporâneas buscam não somente o companheiro do sexo oposto mas também outras mulheres que supostamente, se enamoram por elas devido à desilusões já sofridas com seus com homens ou que possam trazer consigo o conhecimento de outras desiludidas e já crescerem com esta aversão ao homem, figura que traz consigo a carga histórica de dominador e exterminador de sonhos femininos pois, principalmente com o advento da imprensa livre, as atrocidades contra as mulheres passam da ficção e afloram nas manchetes dos principais meios de comunicação, indo além da clausura de Inês Pereira foi vítima em seu primeiro casamento, chegando até mutilações, como o caso de Maria da Penha, personagem real que inspirou Lei Federal de proteção às mulheres e que leva seu nome.

             Inês Pereira nada mais foi do que uma personagem protagonista de um auto de Gil Vicente, dramaturgo do Humanismo da Literatura Portuguesa, ela foi um marco na literatura relacionando a personagem às moças solteiras da época e, em seguida às senhoras casadas, as Inês Pereira de hoje são muitas e ainda existem, enquanto a busca da plena felicidade feminina persistir haverá a frustração, a desilusão, o desencanto e a perda de valores.


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Idealização da figura feminina na literatura trovadoresca

Idealização da figura feminina na literatura trovadoresca

            A literatura trovadoresca teve em sua essência a exaltação ao ser feminino, evocando a mulher como um ser a ser conquistado e cortejado, contrariando o que ocorrera anteriormente, quando a mulher era considerada ser inferior e deveria ser dominada pelo homem.
            - Essa Idade Média é resolutamente masculina. Pois todos os relatos que chegam até mim e me informam vêm dos homens, convencidos da superioridade do seu sexo (DUBY, 1989, p.10.). -  O aparecimento dessa modalidade literária é explicado por Massaud Moises, em quatro teses: tese arábica,  a tese popular ou folclórica, a tese médio-latinista,  a tese litúrgica, e a poesia trovadoresca.
            No trovadorismo, a mulher passou a ser destaque nas cantigas surgidas em Portugal,  como cantigas de amor, cantigas de amigo, cantigas de escárnio e de maldizer; tendo como ícones  Paio Soares de Taveirós – trovador de origem galega (séc. XII) e D. Dinis – o chamado “Rei-Trovador”.
            A mulher, na segunda parte do século XII era descrita como ser perigoso e sedutor, representante demoníaco, capaz de envolver o homem e levá-lo ao pecado; tese esta difundida pelo cristianismo daquele momento. O  historiador George Duby refere-se a Idade dos Homens este momento em sua bibliografia; a partir disto o poeta trovadoresco dedicara seus versos à mulher amada como forma de lamentos de dor.
            Este verdadeiro culto à mulher amada, expresso na poesia trovadoresca, vinha a reverenciar aquele ser que passava a ser uma espécie de premiação ao poeta trovador, ao contrário das expressões literárias medievais e a própria sociedade que tinha uma visão extremamente machista em relação ao ser feminino.

 A mulher, que até então era subjugada ao homem, passaria a ser parte de versos dos poetas trovadorescos transforma em dama e com encantos dedicados através desta manifestação literária.